Metodologia de FTP dinâmico: mix de funding prospectivo e curva agregada
Superando o WACF e o single marginal cost na precificação de crédito e gestão de liquidez
A complexidade da precificação bancária moderna
Em instituições bancárias modernas, a determinação precisa do custo de oportunidade para a precificação de ativos e gestão de passivos passou de mera função de conformidade contábil para se tornar um dos pontos mais importantes da estratégia de rentabilidade e solvência.
O paradigma tradicional, que tratava o banco como um intermediário estático entre depositantes e tomadores, tornou-se obsoleto diante da volatilidade dos mercados de juros, da sofisticação dos produtos financeiros e da rigorosa regulação de liquidez imposta por Basileia III. A administração do Funds Transfer Pricing (FTP) evoluiu de um simples repasse interno de custos para um instrumento central de gestão de riscos de taxa de juros e liquidez, bem como de medição de rentabilidade ajustada ao risco (ROLAND BERGER, 2017).
Em outras palavras, o FTP permite transferir os custos e benefícios de liquidez e risco de taxa para as unidades geradoras de negócio, influenciando diretamente a composição do balanço e a precificação dos produtos financeiros (CADAMAGNANI; HARIMOHAN; TANGRI, 2015).
No banco moderno, as operações de crédito e tesouraria são financiadas por um passivo híbrido e dinâmico e é uma amálgama complexa que inclui depósitos sem vencimento (Non-Maturity Deposits, NMDs), depósitos de poupança, Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Letras Financeiras (LFs), dívida subordinada e capital próprio. A composição desse mix não é estática; evolui organicamente conforme o balanço se expande, os produtos amadurecem e as estratégias comerciais são executadas.
A problemática central reside no fato de que o custo marginal de financiamento de um banco se altera conforme a estrutura do balanço se modifica. Por exemplo, um banco em fase de expansão agressiva de crédito frequentemente exaure sua capacidade de captar depósitos de varejo baratos (os chamados core deposits) e é forçado a recorrer a fontes de mercado mais onerosas e voláteis.
Como será discutido, modelos de precificação de transferência de fundos que ignoram essa dinâmica, baseando-se apenas em custos médios históricos ou em curvas de atacado puras, falham em capturar a realidade econômica da instituição, levando a decisões subótimas de alocação de capital e riscos à rentabilidade de longo prazo.
Este artigo detalha a construção de uma curva de transferência de preços baseada no mix de funding prospectivo. Esta metodologia busca superar as limitações das abordagens tradicionais ao incorporar projeções dinâmicas da estrutura futura de capital na derivação da taxa de transferência. O objetivo é fornecer um arcabouço teórico e prático para instituições que buscam alinhar seus incentivos internos de precificação com a realidade projetada de seus custos de liquidez, garantindo a sustentabilidade da margem financeira no longo prazo. Em especial, destacamos as vantagens do método de mix prospectivo de funding em relação às duas abordagens convencionais (custo médio histórico e custo marginal único), evidenciando como o modelo dinâmico captura melhor os riscos e incentivos envolvidos.
Superando modelos simplistas na gestão de ALM
Para justificar a implementação de um modelo com maior complexidade computacional e teórica como o mix de funding prospectivo, é imperativo analisar criticamente as metodologias predecessoras e compreender onde elas falham na gestão moderna de Ativos e Passivos (ALM - Asset Liability Management). A persistência de modelos subótimos em muitas instituições deve-se frequentemente à simplicidade operacional, mas o custo oculto dessa simplicidade manifesta-se na forma de seleção adversa de portfólio, destruição de valor na originação de crédito e exposição não monitorada a riscos de liquidez.
A falha do “average cost” (custo médio histórico)
A abordagem do custo médio ponderado histórico (Weighted Average Cost of Funds - WACF) calcula o custo dos fundos dividindo-se a despesa total de juros paga sobre o estoque atual de passivos pelo volume médio desses passivos. Esse valor único, geralmente refletindo uma taxa média dos fundings obtidos no passado, é então utilizado como a taxa de transferência (FTP) para precificar novos empréstimos e avaliar unidades de negócio. Embora simples de implementar, essa abordagem incorre em um viés retrospectivo severo, atuando como uma visão pelo retrovisor.
Análise crítica e riscos:
A desconexão entre o custo do estoque legado e o custo marginal da nova tranche de ativos é o problema fundamental do método de custo médio. O uso de uma única taxa histórica implica em subprecificação dos ativos novos em cenários de crescimento, e superprecificação em cenários de contração, por não refletir as condições correntes de mercado (HOVIK, 2012).
Em uma fase de expansão acelerada, por exemplo, a instituição tende a consumir a maior parte de seus depósitos transacionais de baixo custo e precisa captar a custos marginais de mercado em fontes mais onerosas (como LFs ou mercado interbancário). Ao precificar novos empréstimos com base na média histórica, artificialmente baixa devido à contribuição de depósitos antigos baratos, o banco incorre em perda de valor econômico, pois o retorno do novo ativo pode ficar aquém do custo real da dívida marginal contraída para financiá-lo.
Esse fenômeno citado leva a destruição de valor na expansão: ativos crescem com margem econômica negativa na ponta, mascarada por um FTP muito baixo. Além disso, o FTP de custo médio provoca subsídios cruzados opacos: o benefício econômico gerado por depositantes antigos e estáveis (o valor da franquia de passivos de varejo) é transferido para subsidiar taxas de empréstimos artificialmente baixas para novos tomadores.
Essa diluição da realidade de custos mascara a rentabilidade real da originação de crédito e distorce incentivos internos, desestimulando áreas de captação a buscar funding a taxas de mercado, já que o custo “interno” permanece baixo. De forma geral, especialistas consideram o modelo de taxa média única excessivamente simplista e desconectado das condições atuais de mercado (WYLE; TSAIG, 2011; HOVIK, 2012).
A falha do “single marginal cost” (custo marginal único de atacado)
Em resposta às falhas evidentes do custo médio, muitas instituições migraram para o FTP de custo marginal de atacado, onde cada novo empréstimo é precificado como se fosse financiado integralmente no mercado de capitais, casando o prazo do ativo com o prazo do passivo (matched maturity). Essa abordagem, por construção, incorpora o conceito de custo de oportunidade e a estrutura a termo da taxa de juros (curva de yield), atribuindo a cada operação o custo marginal vigente de captação para aquele prazo.
Análise crítica e riscos:
Apesar de conceitualmente superior ao custo médio por olhar para frente, o modelo de custo marginal único padece de excesso de conservadorismo quando aplicado a bancos comerciais de varejo com bases significativas de depósitos. Ao assumir que todo funding marginal provém de dívida emitida no atacado (como LFs ou bonds), ignora-se deliberadamente o valor da franquia de depósitos de varejo que o banco construiu. Bancos universais investem capital significativo em agências, plataformas digitais, marketing e marca para atrair depósitos transacionais e de poupança a custos muito inferiores aos do mercado interbancário; desprezar essas fontes estáveis é tratar o banco como uma financeira pure play de atacado, sem base de clientes.
A abordagem citada resulta em perda de competitividade comercial: ao carregar o FTP com todo o spread de crédito institucional do banco (o prêmio de risco idiossincrático que o mercado exigiria para emprestar àquela instituição), o custo de transferência torna-se artificialmente alto. Unidades de negócio de crédito tenderão a rejeitar operações que, na realidade do mix de funding do banco, seriam rentáveis, ou terão de cobrar taxas finais muito acima do mercado para atingir o hurdle rate interno.
O resultado é a perda de participação de mercado para concorrentes que utilizam modelos mais ajustados à sua estrutura de custo real, ou a concentração em perfis de risco de crédito mais elevados (para justificar o FTP alto). Evidências empíricas confirmam essa distorção: um estudo de caso recente mostrou que um modelo FTP baseado exclusivamente em custo de atacado apresentou margens projetadas inconsistentes com as margens reais observadas, principalmente sob condições de alta de juros, revelando subprecificação do valor dos depósitos e ineficiência na alocação de capital (KNOWLES; SUNDBERG, 2024). Em suma, o FTP marginal puro ignora o benefício econômico dos depósitos estáveis, resultando em preços internos demasiadamente conservadores e desalinhados do perfil real de custos do banco (CADAMAGNANI et al., 2015).
Além disso, o single marginal cost abstrato desconsidera as próprias restrições de mercado para alongar passivos no mesmo prazo dos ativos, o que é particularmente agudo em economias como a brasileira, onde ainda faltam referenciais líquidos de taxa de juros de muito longo prazo e a profundidade do mercado de debêntures e bonds corporativos é limitada em comparação ao volume de crédito bancário (FGV CERI, 2017).
Na prática, mesmo grandes bancos financiam carteiras longas por meio da rolagem sucessiva de instrumentos de prazo mais curto (depósitos a prazo, LFs, compromissadas, captações externas), gerindo risco de refinanciamento, prêmio de liquidez e risco de base em janelas discretas; um FTP que precifica cada operação como se fosse “travada” hoje, de ponta a ponta, em dívida bullet perfeitamente casada, abstrai dessas dinâmicas intertemporais de rolagem e de sua interação com cenários de estresse (SEGURA; SUAREZ, 2016; BCBS, 2013).
Ao mesmo tempo, o modelo marginal puro ignora que o descasamento de prazos entre ativos e passivos é justamente uma característica inerente e economicamente desejável da intermediação bancária, que é a transformação de maturidade e que deve ser limitada e precificada por capital, limites e métricas de liquidez como LCR e NSFR, e não eliminada por hipótese de casamento perfeito de prazos (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2011; SEGURA; SUAREZ, 2016; BCBS, 2013).
Com isso, ao impor um custo marginal único de atacado de longo prazo como se fosse replicável para todo o balanço, o FTP marginal puro tende simultaneamente a superestimar o custo econômico de funding de longo prazo em mercados rasos e a subestimar o valor da franquia de depósitos e da capacidade do banco de gerar, de forma controlada, transformação de maturidade ao longo do tempo.
A solução: mix de funding prospectivo (prospective blended mix)
A metodologia proposta de mix de funding prospectivo emerge como uma síntese dialética superior entre o custo médio (que olha para o passado) e o custo marginal de atacado (que ignora a base barata de varejo). Ela reconhece que a “última unidade monetária” captada para financiar o crescimento futuro não é puramente atacado nem puramente varejo, mas sim um novo mix híbrido que evolui no tempo conforme o balanço se expande ou se contrai.
Este modelo assume que o banco possui uma capacidade finita de saturação para diferentes fontes de liquidez. Conforme o balanço cresce, as fontes baratas e inelásticas (como depósitos à vista) se diluem proporcionalmente, e a dependência de fontes sensíveis a preço (CDBs de grandes investidores e dívida de atacado) aumenta progressivamente.
O FTP, portanto, não deve ser tratado como um ponto estático, mas como uma curva a termo dinâmica que reflita essa mudança na estrutura de capital ao longo da vida de cada operação. Diferentemente do FTP tradicional, o custo de funding atribuído a um ativo de prazo longo já incorpora, na data de originação, o encarecimento esperado do passivo ao longo dos anos futuros.
Vantagens do mix de funding prospectivo:
Em contraste com as abordagens simplistas anteriores, o modelo prospectivo oferece diversos benefícios estratégicos e operacionais:
Alinhamento com a realidade econômica: Combina o melhor do método do custo médio e do custo marginal, evitando as distorções de ambos. O preço de transferência passa a refletir tanto o benefício do funding atual barato quanto o custo incremental das fontes futuras necessárias, alinhando os incentivos internos com os verdadeiros custos de liquidez projetados (CADAMAGNANI et al., 2015).
Precificação competitiva e sustentável: Permite precificar ativos de forma competitiva no presente (aproveitando a base de depósitos de baixo custo disponível) sem subprecificar o risco de liquidez de longo prazo. Assim, evita-se tanto a complacência perigosa do FTP histórico quanto o conservadorismo excessivo do FTP 100% de spreads de mercado, assegurando que o banco ganhe negócios hoje sem abrir mão da margem de amanhã.
Valorização da franquia de depósitos: Reconhece explicitamente o valor econômico gerado pelos depósitos estáveis de varejo, creditando às unidades captadoras um FTP condizente com esse valor e, ao mesmo tempo, protege a margem das unidades de crédito contra a futura escassez de funding barato. Diferentemente do FTP marginal único, o modelo prospectivo remunera adequadamente a rede de captação pela estabilidade proporcionada (CADAMAGNANI et al., 2015).
Proteção da margem financeira no longo prazo: Ao antecipar o efeito da migração do mix de funding (de fontes baratas para caras) na precificação atual, o banco imuniza sua margem de juros contra a provável deterioração dos índices de liquidez em cenários de crescimento. Em outras palavras, o spread de transferência torna-se robusto a mudanças estruturais do balanço, contribuindo para a perenidade da rentabilidade.
Em resumo, o FTP por mix prospectivo não é um ponto ou porcentagem fixa, mas sim uma trajetória de taxas internas que se alteram conforme o horizonte do fluxo de caixa. A adoção dessa abordagem permite ao banco equilibrar finemente a necessidade de competitividade (no curto prazo) com a de solvência e rentabilidade sustentável (no longo prazo), superando as armadilhas dos modelos simplistas precedentes.
Estrutura e modelagem do mix de funding prospectivo
A construção da curva de funding prospectiva parte da decomposição do passivo em grandes blocos de captação – depósitos sem vencimento (contas à vista e poupança), depósitos a prazo de varejo/private, funding de atacado e capital próprio. Cada bloco tem dinâmica própria de prazo, custo e estabilidade; o FTP agregado só faz sentido se essas premissas comportamentais e de mercado forem tratadas de forma consistente.
Nos depósitos sem vencimento (NMDs), o desafio é óbvio: não há vencimento contratual, mas os saldos se mostram estáveis no agregado. A prática consolidada é usar uma carteira de replicação que separa os saldos em:
parcela volátil, sensível a saques de curto prazo e sazonalidade, tratada como passivo de curtíssimo prazo remunerado a uma taxa flutuante (ex.: CDI overnight);
parcela core, pouco sensível à taxa, com duração comportamental de médio ou longo prazo, replicada por uma carteira “ladder” de títulos, suavizando o impacto de choques de juros sobre a margem (WYLE; TSAIG, 2011).
O custo dos NMDs não é zero: mesmo com taxa nominal nula em conta corrente, existem custos operacionais e de hedge/replicação para transformar um passivo comportamentalmente longo em liquidez diária. Em termos simplificados:
Assim, o FTP reconhece simultaneamente o valor da franquia de depósitos e a opcionalidade de saque embutida.
Nos depósitos a prazo (CDB, RDB, LCI, LCA), o prazo contratual é definido, mas a capacidade de renovação e de captação incremental depende da taxa oferecida frente ao mercado. O modelo prospectivo projeta tanto o estoque quanto o “dinheiro novo” a partir de uma elasticidade-preço:
onde β mede o apetite dos clientes por migração de recursos. Além da elasticidade direta, há o efeito de canibalização interna: ao elevar a taxa para atrair novos recursos, o banco tende a aumentar o custo de rolagem da base existente. No FTP, essa captação é precificada por uma curva de juros de mercado acrescida de um spread comercial que reflete o prêmio necessário para sustentar e expandir volumes, calibrado por dados históricos e pela elasticidade estimada.
Já o funding de atacado (Letras Financeiras, dívida subordinada, empréstimos sindicalizados, bonds, linhas profissionais) atua como fonte marginal de última instância. Em geral, é mais caro e mais volátil, com custo para um prazo (m) decomposto como:
No contexto prospectivo, não basta observar o spread atual: é preciso projetar como o risco da instituição e o ambiente macro podem alterar spreads futuros, incorporando um forward credit spread nos prazos mais longos. Essa abordagem está alinhada às discussões recentes sobre o papel da tesouraria e da curva de funding marginal na precificação interna (CADAMAGNANI et al., 2015).
Curva prospectiva de funding, FTP completo e governança
Uma vez modelados os componentes, o passo seguinte é projetar o balanço futuro e transformar essas premissas em uma única curva de transferência. Para cada período (t), o banco projeta os volumes das fontes de recursos.
Uma maneira simplificada é adotar que funding de atacado necessário aparece como gap residual, supondo que os outros volumes sejam conhecidos e determinísticos.
Esse exercício deixa claro em que medida o crescimento dos ativos “empurra” o banco para fontes mais caras ao longo do horizonte. Em muitos casos, o mix sai de uma predominância de varejo para maior dependência de atacado em cenários de forte expansão.
A partir dos volumes projetados, definem-se pesos dinâmicos para cada silo (i):
Associando-se a cada fonte uma curva de custo específica (taxa de referência + spread), obtém-se, em cada período (t), um custo blendado do funding:
A taxa base prospectiva aplicada hoje a um ativo com prazo é a taxa interna de retorno dessa sequência de custos futuros:
O resultado é uma curva forward de funding específica do banco, distinta da curva de juros de mercado. Dois bancos sob o mesmo cenário macro, mas com bases de depósitos e perfis de atacado distintos, terão curvas FTP prospectivas diferentes. Em termos econômicos, se hoje o custo blendado é CDI + 0,5 p.p., mas as projeções indicam que, em alguns anos, o banco dependerá mais de atacado a CDI + 1,2 p.p., o FTP de um empréstimo de 5 anos deve ser uma taxa intermediária composta, e não simplesmente o nível atual nem o nível futuro isoladamente.
Sobre essa curva base são empilhadas camadas adicionais que produzem o FTP completo:
O custo regulatório incorpora, por exemplo, compulsórios que reduzem a fração de recursos utilizável e podem ser pouco ou não remunerados, além de contribuições ao FGC em depósitos elegíveis. Ignorar esses efeitos superestima a margem dos produtos lastreados em depósitos regulados e contraria práticas recomendadas em guias de FTP voltados a risco de funding e liquidez (FEDERAL RESERVE; FDIC; OCC, 2016).
O prêmio de liquidez contingente reflete o carry negativo de manter ativos de alta liquidez (HQLA) para cumprir LCR e NSFR e o fato de que operações longas “travam” o balanço por mais tempo. Em geral, materializa-se como um term liquidity premium crescente com o prazo do ativo e um buffer cost disseminado sobre as operações que consomem liquidez estrutural.
O custo de hedge reflete custos decorrentes da necessidade de imunizar a diferença de moeda e indexadores entre ativos e passivos, pode-se referir a custos de transação acima das curvas de mercado e, também, para remunerar outros riscos decorrentes da necessidade do hedge, como escorregamento de taxas, entre outros.
Por fim, entram os ajustes de política: descontos de FTP em produtos estratégicos (subsídio no ativo) ou FTP interno mais generoso para certas captações (incentivo na origem de funding). Esses ajustes devem ser explícitos e temporários, aprovados em fóruns de governança como o ALCO, e apresentados separadamente do FTP “técnico”, para que se saiba exatamente onde a instituição está abrindo mão de resultado em prol de objetivos estratégicos (CADAMAGNANI et al., 2015; FEDERAL RESERVE; FDIC; OCC, 2016).
Claro, há outras coisas a considerar no custo do empréstimo final além dos citados, como opcionalidades embutidas e oferecidas aos clientes, o spread de risco e o spread do banco para pagar despesas administrativas e tributárias e remunerar o capital dos acionistas.
Um exemplo numérico simples ajuda a fixar a lógica no custo FTP mencionado: considere um empréstimo bullet de 2 anos de R$ 100 milhões, com CDI a 10% a.a., depósitos de varejo a 6% a.a. e atacado a 10% a.a. Suponha que, no Ano 1, o banco consiga financiar metade com depósitos e metade com atacado, mas, no Ano 2, dependa basicamente de atacado.
Um FTP de custo médio histórico (6% a.a.) tornaria a operação aparentemente muito rentável hoje, mas comprimida no Ano 2, quando o funding efetivo migrar para 10%.
Um FTP marginal único de atacado (10% a.a.) levaria o negócio a ser recusado ou precificado fora do mercado, embora seja economicamente viável com uso adequado de depósitos (CADAMAGNANI et al., 2015).
O FTP de mix prospectivo calcula uma taxa intermediária (próximo de 8% a.a.) que incorpora o benefício inicial do funding barato e o encarecimento futuro, preservando margem ao longo da vida da operação.
Para que tudo isso funcione, a governança é crucial. O ALCO passa a ser guardião das premissas de crescimento, estrutura de funding e subsídios internos realizando backtesting sistemático entre o mix projetado e o realizado e ajustando as curvas FTP para novas originações sempre que o balanço real se afastar do plano. Do lado tecnológico, o banco precisa de motor de cálculo capaz de lidar com curvas forward múltiplas, pesos dinâmicos e simulações de cenários (what-if), além de relatórios gerenciais que separem claramente: margem dos ativos, margem dos passivos, resultado de tesouraria (transformação de prazos e liquidez) e efeitos de subsídios.
Em síntese, o mix de funding prospectivo desloca o FTP de um exercício estático para um framework intertemporal: precifica hoje as operações com base na trajetória esperada de funding, nos limites de captação e nas restrições regulatórias e de liquidez. Dessa forma, evita as armadilhas do custo médio e do custo marginal único, alinha incentivos internos à realidade econômica do balanço e aproxima a prática de gestão de resultados das melhores referências internacionais em ALM e FTP (CADAMAGNANI et al., 2015; FEDERAL RESERVE; FDIC; OCC, 2016; WYLE; TSAIG, 2011).
Referências bibliográficas
BANCO CENTRAL DO BRASIL (BCB). (2011). Comunicado nº 20.615, de 17 de fevereiro de 2011 – Orientações preliminares e cronograma relativos à implementação, no Brasil, das recomendações de Basileia III. Brasília: Banco Central do Brasil.
BASEL COMMITTEE ON BANKING SUPERVISION (BCBS). (2013). Basel III: The Liquidity Coverage Ratio and liquidity risk monitoring tools. Basel: Bank for International Settlements.
BASEL COMMITTEE ON BANKING SUPERVISION (BCBS). (2014). Basel III: The Net Stable Funding Ratio. Basel: Bank for International Settlements.
CADAMAGNANI, F.; HARIMOHAN, R.; TANGRI, K. (2015). A bank within a bank: how a commercial bank’s treasury function affects the interest rates set for loans and deposits. Bank of England Quarterly Bulletin, 2015 Q2, p. 153–161.
FEDERAL RESERVE; FDIC; OCC. (2016). Interagency Guidance on Funds Transfer Pricing Related to Funding and Contingent Liquidity Risks. Supervision and Regulation Letter 16-3, Board of Governors of the Federal Reserve System, March 2016.
FGV CERI. (2017). Long-term Finance and Risk Allocation. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura (FGV CERI).
HOVIK, T. (2012). Revisiting Funds Transfer Pricing. Conference Paper, SSRN Electronic Journal, DOI: 10.2139/ssrn.1980186.
KNOWLES, A.; SUNDBERG, E. (2024). Investigating Funds Transfer Pricing in Banking: A Comprehensive Case Study of a Swedish Medium Sized Mortgage Bank. Master’s Thesis, KTH Royal Institute of Technology, Stockholm.
RITCHIE, F. (2016). Funding Liquidity Risk and Fund Transfer Pricing in Banking. MSc Dissertation, Heriot-Watt University.
SEGURA, A.; SUAREZ, J. (2016). How excessive is banks’ maturity transformation? Temi di Discussione (Working Papers), n. 1065, Bank of Italy.
WYLE, R.; TSAIG, Y. (2011). Implementing High Value Funds Transfer Pricing Systems. Moody’s Analytics (White Paper).


Texto impecável! Obrigado por compartilhar o conhecimento.